quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Sobre o referendo

Antes de começar a exposição de meus argumentos sobre a votação que se realizará no próximo domingo, gostaria de esclarecer que acho muito inoportuno este referendo neste instante (como pensam os partidários do NÃO), pois as implicações do artigo 35, o único em votação do estatuto do desarmamento, nem mesmo são conhecidas, como mostrava uma reportagem no Jornal Nacional de segunda-feira. Como o governo nos impõe uma pergunta sobre proibição da venda de armas e munições no território nacional, sem deixar claro para a população as interpretações que a lei em cada caso (SIM e NÃO) pode assumir? Pois na reportagem mencionada, membros do judiciário discordavam sobre um assunto vital: se ganhasse o SIM, poderia quem já possuísse uma arma legal comprar munição após o referendo?
Mas o que poderíamos esperar de um referendo imposto às pressas para acobertar a crise desencadeada no PT e no governo nos últimos meses? Não há quem não fique com uma pulga atrás das orelhas...
Apesar do exposto, votarei SIM no próximo domingo. Eis os porquês:


.Os partidários do NÃO, repetem insistentemente que comprar ou não uma arma legalmente é um direito do cidadão. Sinceramente, não consigo enxergar nisso um direito. Antes de uma pessoa se outorgar a posse de um artefato projetado única e exclusivamente para matar, eu como cidadão exijo o direito de andar por aí, sem que a minha vida se encontre a um aperto de gatilho de um “cidadão de bem” legalmente armado. Devido à grande burocracia existente hoje para se comprar uma arma, só mesmo alguém muito revoltado com o mundo, alguém muito presunçoso de suas habilidades (certamente andaram vendo muito Rambo e afins) e ainda, e principalmente, desprovido de qualquer sensibilidade pelo ser humano, para chegar até o fim dos trâmites e efetuar a compra. Ou seja, levando em conta o perfil de quem compra uma arma hoje, sinto-me ainda mais ameaçado e vejo quão errado é o caminho que a sociedade toma em vista dos problemas da criminalidade no Brasil. Vejo na figura de quem quer se armar para “combater” a violência, além de um ignorante, desconhecedor do perigo que reagir representa não só a si mesmo como às outras vítimas, a mesma pessoa que crê que a maior causa da criminalidade atual é a polícia fraca e corrupta. Se todos nós fizéssemos nossa parte dentro da sociedade, e o governo desse educação de qualidade ao povo, certamente não presenciaríamos campanhas idiotas como a do Basta. Mas o brasileiro não cumpre sua parte. Porque o brasileiro (e em especial o carioca) é malandro, o brasileiro avança o sinal, o brasileiro faz gato, sonega impostos, joga lixo na rua, não contribui com um próximo carente. Ele apenas espera pelo seu redentor, reclama do governo, e num ímpeto de presunção, se arma, caindo no erro de querer mudar o mundo de fora para dentro. Olhe antes para si mesmo, para sua família, seus filhos, seus companheiros de trabalho, veja o que você faz de errado, com o que você pode contribuir para melhorar a situação e não fique apenas reclamando. E aí, se encaixa bem o que diz aquele ator na campanha pelo SIM: “Faça a sua parte e exija do governo que faça a dele”.

.Por falar em atores, é descabida a acusação que a campanha do NÃO faz, ironizando a participação da classe artística na campanha adversária. Quem tem caráter, é inteligente, vota pelas suas conclusões, independente de atores viverem ou não em condomínios vigiados e defenderem o SIM, ou do governo defender o SIM. Vota-se de acordo com as conclusões que se chega depois de se refletir e se informar sobre o assunto, e não de acordo com a opinião de pessoas inescrupulosas ou incoerentes.

.Outra questão é a de que a proibição faria crescer o mercado ilegal de armas. Ora, mantendo a minha coerência, creio ser impossível mudarmos os rumos de nossa sociedade sem que isso implique numa mudança pessoal de cada um. Creio que possuir uma arma não faz ninguém mais seguro, pelo contrário, o deixa mais à mercê do ímpeto de um bandido. Creio também que um cidadão normal não é gabaritado para controlar seus instintos em momentos de ira, de revolta, muito comuns na vida estressante que levamos hoje, motivados pela sociedade do consumo. E convenhamos, uma apertada de gatilho é muito pouco tempo para que a razão se sobreponha aos nossos impulsos. Só mesmo sendo muito arrogante para crer o contrário! Logo, acredito que o primeiro passo é a proibição do comércio destas coisas feitas para matar. Um segundo, é a conscientização por que cada um tem que passar, para que, entre outras coisas, não compre armas ilegalmente.

.Outro ponto repetido à exaustão pela campanha do NÃO é a de que o referendo não vai desarmar os bandidos. Bom, este argumento é imbecil e até constrangedor de se comentar, visto que obviamente não é com este intuito que ele foi formulado.

Bem, essa é a minha opinião. Creio que só teremos paz quando formos nós mesmos cidadãos serenos, tranqüilos e conscientes dos problemas estruturais pelos quais passam nosso país e passemos a agir para mudarmos esta situação pelos seus alicerces, de forma sólida. E não é comprando uma arma que faremos isso.

terça-feira, 5 de abril de 2005

A sacar fotos

Era uma vez um menino de dentes tortos. Eram tão tortos os dentes do menino, que às vezes quando ele sorria, seus dentes se enganchavam e seu sorriso se perpetuava. Um dia botaram-lhe aparelho na boca. Engraçado era ver que os dentes, em lugar de se acertarem, entortavam também o aparelho, tudo uma obra hedionda de cálcio e metal. Resolveram então arrancar-lhe os malditos. Alicate em punhos, o dentista retorcia os olhos de aversão e ojeriza ante coisa tão assimétrica e singular. Anestesia dada, deu-se início ao trabalho fastidioso de arrancar dente por dente da arcada infame do pobre menino. Deu-se então outro imprevisto: para a surpresa do dentista, quanto mais puxava com o alicate, mais dente surgia da gengiva, e tudo ia se entortando e se acomodando na boca do rapaz. Pois muito bem, trata-se de uma aberração da odontologia. Houve-se por bem parar com a cirurgia para levar o moleque para uma conferência, onde dentistas de todas as partes do país poderiam estudar aquela aberração. Tudo marcado para o grande debate odontológico, o moleque se mete numa briga, leva um soco mais atravessado que lhe arrebenta da boca tudo o que não é língua. Agora vejam vocês, quão improvável é isso?

domingo, 19 de dezembro de 2004

Dezembro

Chegou dezembro. Tem gente que não gosta do Natal, acha que Papai Noel é o símbolo máximo do capitalismo... Eu amo esta época do ano. Quando acabam as aulas, as ruas ficam mais vazias de manhã, as coisas parecem mais calmas, serenas. Num instante, parece que todo o sistema em que vivemos nos últimos nove ou dez meses desaparece, e logo me ocorre quão horrível ele é. Passamos o ano inteiro correndo atrás de coisas que por si só, não nos fazem o menor sentido. Fazemo-lo por obrigação, para sobrevivermos. Mas não só por isso. Há aí também uma questão muito maior, que não tenho a menor presunção de explicar, mas trata-se de ocupar o tempo para se evitar as indagações mais inerentes a nossa existência, ao nosso tédio. É bem verdade que muitas vezes, quanto mais paramos para refletir sobre essas coisas, mais nos afundamos em dúvidas e parecemos um verdadeiro poço de vontades e desejos insaciáveis e incertos. Mas nesta época do ano não. Talvez pelo cansaço do período de labuta, talvez pela expectativa de realização de alguns caprichos, não nos incomodam as filosofices.

Além disso, o Natal tem uma aura muito especial. Algo muito sublime e puro, como os velhos desenhos da Disney. É muito diferente do carnaval por exemplo, quando cada um parece travar uma competição interna para ver quem vai ter a estória mais esdrúxula para contar para o resto da vida, seja uma bebedeira homérica, uma suruba escatológica ou um perrengue qualquer. Há gostos e gostos. Nesse exato momento, parece-me mais apropriada a ternura regulada das coisas justas e amorosas.



Ps.: Agora tenho um fotolog wich, by the way, é muito mais regularmente atualizado que essas minhas (in)confidências. moderaterock

quinta-feira, 11 de novembro de 2004

Minha doce apatia

Ultraviolence

Segunda-feira eu me senti assim:

Ando por aí, solene e garboso, com a altivez dos que nada querem. Como é soberbo passar por alguém e nem lhe olhar, sequer notar-lhe a presença! Chuto o que aparece no caminho porque desviar é trabalhoso. Não vejo paisagem, não penso na vida, apenas me desloco pelas trajetórias mais curtas. Não atendo chamados, não autorizo ninguém a me alterar a inércia. Não dou margem a qualquer atrevimento, não me dirija a palavra! Não tenho vontades nem desejos, para mim tanto faz! Ah! o gênio do desprazer! A beleza da indiferença! Nada é mais atraente do que alguém que me despreza! É admirável o mecanismo do meu movimento. Com que graça corto o ar, passo após passo, sem nada esperar! Chego a meu destino e me cansa ter que parar. Não há o menor sentido agora.

Ps.: Comentem, porra!



sábado, 6 de novembro de 2004

bleu bleu bleu

Hoje eu não deveria estar postando. Deveria estar em São Paulo, esperando ansiosamente pelo show do Brian Wilson. Tem um monte de coisas erradas no mundo. Só que eu não quero consertá-lo feito alguns. Quero me adaptar.

Nada para escrever aqui, vou deixar um textículo ruinzinho que escrevi. O título eu não dei porque quero que seja o nome do personagem e não sei que nome dar. Quem tiver sugestão...



Desde pequeno lhe agradavam as coisas azuis. Era tamanho seu fascínio que seu comportamento e seus gostos se explicavam pelo que de anil havia no que quer que fosse. Talvez por isso nunca foi grande glutão. Embora, isso é lá verdade, não demorou muito e deu para dizer que chocolate tinha um gosto azul. Ele era excêntrico, mas bobo não era não.

Um dia, soube que blues era um tipo de música. Depois de escutá-la, soube que o nome se explicava porque, em inglês, blues significava triste também. Achou muito errado. Como puderam desperdiçar a alcunha naquele lamento fastidioso? Para ele, azul era Chopin. Ouvindo seu piano, costumava sentar-se na areia da praia e mirar o horizonte. Gostaria de morar lá porque era onde os azuis se encontravam. Quando o crepúsculo vinha sangrar-lhe a paisagem, recolhia-se magoado. Nunca se resignou que àquela pintura se sucedesse tamanha brutalidade. A aquarela que se formava na sesmaria sempre lhe lembrava “O Grito” de Munch. O medo... Munch devia ter mesmo sangue de rei.

Sua paixão persistiu até que conheceu Rosa. Rosa era loira, palmeirense e usava uma mochila vermelha.

A partir de então, passou a gostar de salada de frutas e a admirar as flores e o arco-íris.

terça-feira, 26 de outubro de 2004

The old in-and-out

Quando tinha meus oito anos (ai que saudades deles), morava em um prédio onde havia várias crianças mais ou menos da mesma idade. Uma delas era Marina. Quando ainda não tinha feito amizades no edifício, às vezes esbarrava com um grupo de garotas, e dentre elas estava Marina. Ela me chamou a atenção e tomei para mim que gostava dela. Passou o tempo e um dia estava no play quando o grupo de meninas me chamou para brincar. Logo fiz amizade com elas. Muitas vezes faço amizades com meninas mais facilmente...

Mais um punhado de dias e surgiram risinhos e gracejos por parte das amigas que Marina gostava de mim. Fiquei muito contente na época, mas morria de vergonha de que soubessem que também gostava da Marina. Por essa época já falava com todos do prédio, inclusive com os meninos. Não demorou muito, a notícia de que Marina gostava de mim se espalhou e meus amigos começaram a me pressionar para que eu a namorasse. Meses depois, como se estivesse muito difícil persuadir meus companheiros de pelada de que não gostava da Marina, pois ela era muito jeitosinha, tive uma brilhante idéia para afastar o perigo de que me desvendassem o segredo. Foi quando disse para os rapazes que não gostava de mulher. Lembro que os mais velhos riram muito e que até ensaiaram, mas não me enxovalharam como seria de se esperar. De imediato haviam concluído que eu gostava de homens. Aí já era mentira demais! Disse que não gostava de homem nem de mulher e ficou por isso mesmo. De modo que quando o papo descambava para meninas, sempre tinha desculpa para não me posicionar, desviando assim de minha timidez.

Lembrei disso por esses dias pelo acontecido na faculdade. O papo era sobre as garotas que passavam, ou sobre uma garota em especial que passava, não me recordo... Alguém disse que comia, eu me manifestei também. Não me lembro como, dessa prosa fez-se menção à Scheila Carvalho. Acho que um de meus amigos disse que ela era a que “morria” mais fácil. Aí surgiu a questão. Eu não como a Scheila Carvalho. Mediante o espanto do meu amigo, perguntei a todos os homens lá da sala e todos não só comiam como lambiam os dedos. Muito estranho... A tal rapariga têm umas pernas que na minha opinião se assemelham muito às do Roberto Carlos. Fora a cara de quenga e a barriga tanquinho que para mim é coisa de homem... Outra vez sou o excêntrico, só que desta vez digo a verdade.

Mas de tanto persistir encontrei alguém da minha extirpe. Pus a questão para o meu irmão. Ele respondeu que não sabia, displicentemente. Retruquei que não era tão difícil assim responder. Coisa simples: come ou não come? Resposta de meu querido irmão: “ Ah, cara sei lá, porra! Depende: ela é legal?”

quarta-feira, 20 de outubro de 2004


Minha gangue da faculdade no quarto da música (e viva o alternativismo carioca!)